Maria Eduarda Alves Ferreira
07 May
07May

“Eu acho que tem algo diferente.”

Essa é uma frase comum em atendimentos pediátricos e, na maioria das vezes, vem da mãe. É ela quem acompanha de perto cada conquista, cada comportamento e cada mudança no desenvolvimento da criança. Ainda assim, essa percepção inicial nem sempre é valorizada como deveria. Em muitos casos, o que começa como uma preocupação legítima acaba sendo minimizado, o que pode atrasar a identificação de alterações e o início de intervenções importantes.

A percepção materna como primeiro sinal de alerta

Estudos na área da saúde infantil mostram que os primeiros sinais de alterações no desenvolvimento costumam ser percebidos no ambiente familiar, principalmente pela mãe, que está inserida de forma contínua na rotina da criança.

Essa proximidade permite que pequenas diferenças no comportamento, na comunicação ou na interação sejam notadas antes mesmo de se tornarem evidentes em avaliações clínicas. Não se trata apenas de uma percepção subjetiva, mas de uma observação construída no dia a dia, a partir da convivência.

No entanto, mesmo com esse papel fundamental, ainda é comum que essa fala não seja considerada com a devida atenção. Isso pode contribuir para um intervalo entre a suspeita inicial e a confirmação diagnóstica, impactando diretamente o tempo de início das intervenções.

O que mostram as pesquisas sobre a escuta e a participação materna no processo terapêutico

A importância da escuta materna não se sustenta apenas na prática clínica, mas também é amplamente descrita na literatura científica.

Segundo um estudo realizado por Braga e Ávila (2004), que investigou a detecção de transtornos do desenvolvimento a partir da perspectiva de mães, os primeiros sinais de alterações são, na maioria dos casos, percebidos inicialmente pela família, especialmente pela mãe.

A mesma pesquisa aponta ainda que, mesmo diante dessa percepção precoce, o diagnóstico costuma ocorrer tardiamente, após a idade considerada ideal para intervenção. Esse dado evidencia um desencontro entre o momento em que o sinal é percebido e o momento em que ele é efetivamente valorizado na prática clínica.

Outro ponto relevante é que esse atraso não está necessariamente relacionado à ausência de sinais, mas à forma como eles são interpretados ao longo do processo de acompanhamento. Quando a fala da mãe não é considerada como parte da avaliação, perde-se uma oportunidade importante de investigação precoce.

Imagem por banco de dados Fonodescomplicando

Além disso, estudos sobre o envolvimento materno no cuidado infantil mostram que a mãe desempenha um papel central no desenvolvimento da criança, atuando diretamente na mediação de estímulos, na adesão ao tratamento e na evolução clínica.

Esse conjunto de evidências reforça um ponto essencial: escutar a mãe não é apenas acolher uma preocupação, é acessar um dado clínico relevante.

A mãe como parte do cuidado, não como coadjuvante

Se a mãe é, muitas vezes, a primeira a perceber alterações no desenvolvimento, é incoerente que ela ainda seja colocada em um papel secundário dentro do cuidado em saúde.

A literatura já aponta que a participação da família, especialmente da mãe, não é apenas complementar, mas fundamental para o avanço do processo terapêutico. Estudos indicam que os resultados clínicos tendem a ser mais positivos quando a família se reconhece como parte ativa do tratamento e participa de forma contínua no cuidado da criança.

Nesse contexto, a mãe deixa de ser apenas acompanhante e passa a ser uma aliada no processo terapêutico. Sua presença, seu olhar e sua vivência com a criança fornecem informações que não podem ser reproduzidas em um ambiente clínico isolado.

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Além disso, pesquisas mostram que o envolvimento materno está diretamente relacionado à evolução da criança, influenciando desde a adesão ao tratamento até a continuidade das estratégias no ambiente domiciliar.

Isso reforça a necessidade de uma mudança de postura na formação e na prática profissional. Escutar a mãe não deve ser visto apenas como um gesto de acolhimento, mas como parte essencial da condução clínica.

Quando essa escuta acontece de forma qualificada, o cuidado se torna mais completo, mais preciso e mais humano.

Escutar é cuidar: um compromisso da formação à prática

A escuta materna não deve ser vista como um detalhe na consulta, mas como um dos pilares da prática clínica em saúde infantil. É, muitas vezes, a partir dela que surgem os primeiros indícios de que algo precisa ser investigado, acompanhado ou estimulado.

Para os estudantes da área da saúde, compreender isso ainda na formação é essencial. Aprender a escutar não é apenas desenvolver empatia, é construir uma base sólida para a prática clínica. É por meio da fala da mãe que o profissional tem acesso ao cotidiano da criança, às mudanças sutis e aos sinais que nem sempre são visíveis em um atendimento pontual.

Já para os profissionais que estão na prática, o desafio é outro, mas igualmente importante: não tratar essa escuta com irrelevância. Minimizar a fala materna ou interpretá-la como excesso de preocupação pode significar perder um tempo valioso no processo de identificação e intervenção.

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A literatura é clara ao demonstrar que a mãe não apenas percebe primeiro, mas também participa ativamente do desenvolvimento e da evolução da criança. Ignorar essa presença é enfraquecer o próprio cuidado.

Escutar a mãe, portanto, não é apenas acolher, é qualificar a prática. É tornar o atendimento mais sensível, mais preciso e mais alinhado com a realidade da criança. E, acima de tudo, é reconhecer que o cuidado em saúde não se constrói sozinho, ele se constrói em conjunto.


Por Maria Eduarda Alves Ferreira 
Do Fonodescomplicando.com


 Nota editorial

Esta matéria foi desenvolvida com o objetivo de destacar a importância da escuta e do cuidado no contexto do desenvolvimento infantil, especialmente no papel exercido por quem ocupa a função materna no cotidiano da criança. Em alusão ao Dia das Mães, o conteúdo busca reconhecer como essa figura, que não se limita necessariamente à mãe biológica, mas a qualquer pessoa que exerça esse lugar de cuidado, vínculo e presença, contribui de forma significativa para o processo terapêutico e para a evolução clínica.

Ao mesmo tempo, é importante reforçar que o desenvolvimento infantil é construído em rede, envolvendo toda a família e os diversos arranjos possíveis, respeitando as diferentes realidades, histórias e configurações familiares. Este olhar amplia a compreensão do cuidado em saúde, tornando-o mais humano, inclusivo e alinhado com a diversidade presente na prática clínica.

Referências:

BRAGA, Maria Rita; ÁVILA, Lazslo Antonio.
Detecção dos transtornos invasivos na criança: perspectiva das mães. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 12, n. 6, p. 884-889, 2004.

LIMA, Regina Angélica Beluco Carvalho.
Envolvimento materno no tratamento fisioterapêutico de crianças portadoras de deficiência: compreendendo dificuldades e facilitadores. 2006. Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006.

CALLOU, Ticiane Kelly Bento Machado; CALOU, Antonio Leonardo Figueiredo. A contribuição familiar no processo terapêutico da criança: um estudo bibliográfico. Id on Line Revista Multidisciplinar e de Psicologia, v. 14, n. 49, p. 436-449, 2020.

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